"O mistério da Razão, eis o mistério
Que desafia a própria razão nossa,
Pois ela é Deus em forma de critério
Ou o Diabo de nós fazendo troça"...
Assim dizia Frida Welt, minha avó,
Que ao podar rosas, retirando larvas
E ervas más que compartilham nosso pó,
Não eram necessárias nem palavras...
Minha avó era em si alegoria,
E eu sabia que se ela fosse muda
Suas ações teriam igual sabedoria.
Morreu Frida e eu voltei ao seu jardim
E só encontrei pó, terra desnuda;
Plantar rosas só cabia agora a mim...
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26/06/2018
A barlavento (de Alma Welt)
Vão-se as dores e risos com os ventos,
Vão-se neles nossas loucas veleidades...
Então ficam nossos passos bem mais lentos
Carregados de lembranças e saudades...
Assim Frida, a minha avó, dizia,
Mas o fazia por certo em alemão,
Que como versos de Goethe soaria,
A mim, guria, sentada ali no chão.
Vão-se os anos na cruel fuga do vento
E ficam nossas lembranças ancoradas
Ou singrando na maré à barlavento.
Lá se foram avó Frida, avô Joachim,
Mas permanecem, as proas amarradas
Nesse cais petrificado que há em mim...
As rosas da aventura (de Alma Welt)
A aventura diária continua
A nossa vida inteira até o fim.
Se a velhice não nos pegar na rua,
Aventureiros, pois, sejamos de jardim.
Como assim? Tu perguntas intrigado...
E respondo que a Frida, minha avó
Que fez de suas roseiras seu legado
Floriu o mundo antes de voltar ao pó.
"Mas isso é pouco!" Insistes, queres mais.
E eu afirmo que uma alma desabrida
Reviverá as aventuras nos quintais...
Minha avó liderava os nossos passos
Com hábeis mãos, se talvez olhos escassos,
Nestas rosas que espelham nossa vida...
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23/12/2020
O Aceno (de Alma Welt)
Eis-me como quase em selva escura
Quando penso meu jardim ter alcançado.
Mal avisto de meu lar a forma pura
Da casa e sua varanda de sobrado...
Mal enxergo no jardim minha avó Frida
A conversar com seus botões perfeitos,
Como também de meus cães a acolhida
De seu amor tão cego aos meus defeitos.
Um silencio de uma paz de quarentena
Paira denso a começar pela varanda
Em que meu próprio vulto ainda acena.
Então ocorre, a mim, que esteja pronta,
E ao imortal coração que me comanda,
De que morri faz tempo e não dei conta...
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02/11/2020
As rosas que falam (de Alma Welt)
É no jardim onde mais tenho saudade
Da avó Frida, podando suas rosas
Para crescerem mais e mais vistosas
Porque assim elas falam, na verdade.
A beleza das rosas é uma fala
E não roubam o perfume de ninguém,
Mas a poesia do Cartola ainda me cala
E me falta quem devia vir também...
Assim meus olhos têm esse ar tristonho
E faz tempo que meus sonhos eu exibo
Para alguém sonhar comigo, eu suponho.
E volto ao jardim sem mais certeza
Porque já não tem ninguém da minha tribo
E minha beleza é uma flor na correnteza...
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31/08/2020
Volto ao Jardim (de Alma Welt)
Como era belo o meu velho jardim
Naquele tempo da minha avó Frida...
Eu a vejo ainda dentro em mim
Enquanto com a roseira a gente lida.
Ninguém está ao léu solto no vento
Pois carregamos os vetustos ancestrais
Que nos ancoram bem firmes no Tempo
Na sua baixa maré do Nunca Mais...
Agora o meu jardim está capenga
E por certo não possui o mesmo viço
E as rosas até fazem lenga-lenga,
Tão mudas quanto as rosas do Cartola,
Mas, roubado, o perfume deu sumiço,
E nos olhos meu sorriso pede esmola...
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04/08/2020
A melhor rosa (de Alma Welt)
Estamos vivendo a Kali Yuga,
Um velho indiano o disse a mim.
Eis que hoje a Razão está em fuga
E no princípio estamos, mas do Fim.
Visto isso, fiz as malas, fui de volta
Ao pampa e ao meu velho casarão
Onde caminho alegre e sem escolta
Ao compasso de meu próprio coração.
Quantas vezes o mundo se acabou
E renasceu de suas cinzas fumegantes
Como a Fênix que o grego imaginou...
Então voltei ao jardim da avó Frida,
Colhi a melhor rosa, como antes,
E meu mundo reiterou sua acolhida...
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22/07/2018
Nota
Tanto Oswald Spengler (1880 – 1936) em "A Decadência do Ocidente", quanto o filósofo italiano setecentista Giambattista Vico (1668 — 1744) , em "La Scienza Nuova", expuseram um ciclo da História em quatro fases (Teocracia, Aristocracia, Democracia, Caos). O ciclo quadripartido de Spengler é derivado de Goethe, como o de James Joyce provém de Vico. Tanto Goethe como Vico desenvolveram a ideia a partir da sequência das quatro Idades da mitologia grega (Idade de Ouro, de Prata, de Bronze , de Ferro), que por sua vez é a contraparte do Círculo hindu dos Quatro Yugas (Krita, Treta, Dvapara, Kali),
(Augusto e Haroldo de Campos em Panaroma do Finnegans Wake, Editora Perspectiva, 1971)
Historicamente estaríamos vivendo a Kali Yuga, ou o Caos.
Alma e o Lobo (III) (de Alma Welt)
Uma vez eu estava na coxilha
À procura daquele meu guará
E encontrara suas pegadas numa trilha
Quando chegou Matilde, minha bá.
Ela zombou:"Com esse teu cabelo ruivo,
Estás a Chapeuzinho, tal e qual,
A perseguir o Lobo com teu uivo
Porque és avessa a todo o natural."
"Vem para casa, ó guria, deixa em paz
O teu lobo, que está dentro de ti
Solitário, arredio e contumaz..."
Eu a acompanhei no seu retorno
E no vetusto casarão logo me vi
Com Frida minha avó, e um banho morno...
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26/05/2018
A falsa paz (de Alma Welt)
Sempre senti que paira uma ameaça
No ar, em meio a paz deste jardim,
E diante de uma nuvem má que passa
Eu perguntava à minha avó, assim:
"Nenhum alarma nem flâmula se alça
E mal ouvimos o rangido da porteira.
Vó Frida, por quê a paz me soa falsa?
Por quê razão não a sinto verdadeira?"
E a velha zombeteira e perspicaz
Piscou o olho fazendo uma careta,
E disse: "Alma, pergunte ao capataz."
"O Galdério é que sabe dos rumores
E ouve primeiro o rufo dos tambores
E muito longe o sopro da corneta..."
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30/03/2018
Memórias da Alma (de Alma Welt)
"Minha filha, viver é estar na selva
E deixar o rastro onde passemos.
Nossas ações, nossos passos nessa relva
Definem quem nós somos ou seremos..."
Assim meu pai dizia, aventureiro
Que avistara coisas escabrosas
Na ascensão do Reich (o Terceiro),
Mas voltara aos vinhos e às rosas...
E eu, sentadinha em seus joelhos,
Viajando em suas palavras como um coche
Diante do Jardim da minha avó Frida,
Cercados pela vinha do avô boche
Chegado mais aos mandos, não conselhos,
Lá ia eu, no coração forte da Vida...
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27/03/2018
Olhai as flores (de Alma Welt)
Vivo, sim, em eterna vigilância,
No que for concernente à minha alma,
Que me foi dada, eu sei, em confiança,
Para levá-la de volta sem um trauma.
Mas "trauma" é sonho, dizia minha avó *
Se referindo da palavra a própria origem
Na sua aldeia, de onde saiu só
Pra encontrar com meu avô, ainda virgem.
E zelaria por mim muito mais tarde,
Preservando não a minha inocência
Mas a própria chama que em mim arde.
" Minha Alma"- ela dizia- "olhai as flores
E mantenha como elas vossas cores
Até o fim, tudo mais é excrecência"...
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23/02/2018
Nota
*..."trauma" é sonho, dizia minha avó - O termo psicanalítico "trauma", deriva da palavra alemã "traum" = sonho, sonhar.
Frida (Frieda Henner-Welt), a avó da Alma, era alsaciana e sua língua de origem, o alemão.
O que disseram as flores (de Alma Welt)
Quanto é bom colher flores no jardim
Já que deixo por momentos inefáveis
As perpétuas doze sílabas contábeis
E tão somente de tratar tanto de mim.
Na sala ponho as flores nos seus vasos
Nos quartos e cozinha, no conjunto,
Que alegria dão em muitos casos,
Exceto os lírios e cravos de defunto.
Mas minha avó Frida disse um dia:
"Alma pare de colher as minhas flores
Que não são passarinhos de gaiola."
"Elas se queixaram que as colhia
E agora a mim gritam seus pudores,
E que nada as obriga a dar esmola..."
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09/02/2018
Lembranças de minha avó (de Alma Welt)
"A vida é dura, não adianta reclamar.
Se queres o melhor pra ti e pros outros,
Monta tu e teu irmão aí nuns potros
E vão vós mesmos, galopando, lá buscar."
Assim dizia minha avó meio matuta,
No jardim ou pondo a mesa pro jantar.
E eu, calada, em permanente escuta,
Aguardava seu espantoso gargalhar.
Eu pensava que minha avó era uma bruxa,
Que assim diziam os peões e suas prendas
Que apontavam seu nariz e a boca murcha.
Então dizia um besteira, simples chiste,
E sua risada que deixava o pelo em riste,
Vinha do fundo ancestral de antigas lendas...
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25/09/2017
O Jardim dos Desraigados (de Alma Welt)
Voltar ao lar, foi tudo o quanto eu quis.
O lar se foi, não seria mais possível
À pessoa, à poetisa que me fiz,
E o que restou agora é invisível...
Tudo agora é espectral, o casarão,
O jardim da velha Frida, minha avó,
O vinhedo e o lagar em ruína estão,
Quase tudo quanto eu toco vira pó...
O Tempo é o Senhor dos desraigados
E passa como o Huno em seus cavalos
Deixando a terra, os campos, tão salgados
Que até para os capins não há retorno
Com o sabor doce que tinham ao prová-los
Mordendo um talo, deitada, olhando em torno.
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30/05/2017
Agosto (de Alma Welt)
Agosto me fazia perder sono,
Mês de cachorro louco, vejam só...
E alguns pobres cães em abandono
Eram então perseguidos de dar dó.
Eu os recolhia e dava banho no quintal
De nosso casarão em Novo Hamburgo *
Tentando salvá-los de um expurgo
Motivado por um medo universal,
O da loucura, que a todos ameaça
No fundo da nossa consciência
Coberta por telhado de vidraça.
Somos loucos, sim, mal o sabia,
Mas desbordava da minha inocência
Que só na minha alma não cabia...
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18/09/2016
Nota
* De nosso casarão em Novo Hamburgo - Alma, concebida em Santa Catarina, no Vale to Itajaí, foi dada à luz numa estrada, no acostamento, a caminho de Novo Hamburgo (RGS), onde viveria até os oito anos, quando então se mudaria com seus pais para estância pampiana de seus avós, Joachim e Frieda (Frida).
Queria estar com eles (de Alma Welt)
Queria estar com eles, novamente,
Os mortos de minha vida e alma,
Que passaram por mim e minha mente...
Nem sempre de maneira doce e calma.
Foi-se um, bastante atormentado,
Outro com um olhar pra fora, digno
Não só por estar em mim pousado,
Meu pai por seu carinho fidedigno.
Avô Joachim, avó Frida; a Açoriana
Minha mãe, que eu não pude compreender
A ponto de esquecer seu nome Ana...
E nada anjo, minha pobre irmã Solange, *
Nosso embate que eu devia esquecer,
E ter contado a história me constrange... *
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06/09/2016
Nota
* A história do "embate" entre as duas irmãs, Alma e Solange, que se tornaram inimigas em função de uma intensa disputa pela herança do pai e dos avós, a estância pampiana, o casarão e o vinhedo, está contada no romance A Herança, de Alma Welt, primeiro volume da trilogia A Ara dos Pampas, que já pode ser lida em E.books da Kindle books, da Amazon. Trata-se de uma saga cheia de emoção, mistério e suspense terminando com um empolgante julgamento da própria Alma em tribunal de Juri, com um final surpreendente.
Sem injustiça (de Alma Welt)
"Na vida a gente tem o que merece,
Não te iludas, é rara a injustiça.
Achas que Deus alguma coisa esquece?
Ele amarra cachorro com linguiça?"
Assim dizia sempre minha avó Frida
E eu achava uma graça imensa
Porquanto ela não era muito lida,
Sem biblioteca e só a despensa.
Demorei para curvar-me à sapiência
Popular, que minha avó encarnava,
Embora inimiga da Ciência.
E afinal, quando a vida me tirou
Tanta coisa e gente que eu amava
Só o "cachorro com linguiça" me voltou...
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04/09/2016
As rosas de minha avó (de Alma Welt)
As rosas do jardim da minha avó
Permanecem inesquecíveis para mim,
Assim como seu incrível pão-de-ló
E a sebe com seu cheiro de jasmim.
Nós tomávamos chá entre as roseiras
Numa mesinha caprichada, com toalha
E a louça branca, fio de ouro pelas beiras,
E tudo o mais sequer sem uma falha.
O jasmim faz a vez das madalenas
Numa espécie de memória proustiana
Quando reconstituo aquelas cenas:
Duas guerras na pele, a velha Frida,
Uma vida inteira em luta insana,
E a minha, quase em branco para a vida...
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13/08/2016
A Calafate (de Alma Welt)
Guria eu tinha tudo pra dar certo:
Beleza, inteligência e coração;
Tinha caráter e um olhar esperto,
“Tenía angel” e poesia por condão.
Quem diria eu dar com os burros n’água!
Embora ouvisse minha avó Frida dizer
Que “poesia boa é a que tem mágoa”,
Eu não tinha bons motivos pra sofrer...
Báh! A vida sempre dói, é nossa sina,
E o fracasso vigia os nossos passos
Como agourenta ave de rapina...
Mas agora que a maré sobe e inunda,
Sou que enche espaços,
Enquanto o meu pobre barco afunda...
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20/06/2014
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